Hospitais públicos e privados em várias partes do País
relatam aumento do número de internações de crianças e adolescentes pela
covid-19 e abrem leitos para dar conta da demanda. Com o avanço da
variante Ômicron, altamente transmissível, e ainda baixas taxas de
vacinação infantil, a população pediátrica se torna mais vulnerável à
doença.
No Hospital Israelita Albert Einstein, na
capital paulista, são dez pacientes menores de 18 anos internados com a
covid-19 - oito deles em unidades de terapia intensiva (UTIs). Um mês
atrás, não havia nenhum. Já no Sabará Hospital Infantil,
o número de crianças e adolescentes internados com suspeita ou
confirmação de covid triplicou do fim do ano passado até quarta-feira,
26.
"A covid não é leve em crianças. Estamos vendo isso pelo
número de crianças internadas", diz Linus Fascina, gerente-médico do
Departamento Materno-Infantil do Einstein. No hospital, os leitos são
disponibilizados conforme a demanda. Segundo o médico, as crianças têm
quadros de diarreia e inflamações e, em alguns casos, podem precisar de tratamento intensivo para receber hidratação e remédios.
"(A
covid-19) pode afetar a musculatura do coração, uma ou outra criança
precisou de drogas que ajudassem o coração a bater com intensidade mais
adequada." Também preocupam os casos de síndrome inflamatória
multissistêmica em crianças, complicação que ocorre de duas a quatro
semanas após a infecção e se manifesta por inflamações na pele e
problemas cardíacos.
Na
semana passada, o governo paulista informou que as internações de
crianças e adolescentes em leitos de UTI pelo coronavírus no Estado
aumentaram 61% nos últimos dois meses. Na quarta-feira, a ocupação de
leitos de UTI pediátricos era de 60%, segundo a Secretaria Estadual da
Saúde.
Outros Estados, como o Amazonas, também
tiveram alta nas internações infantis. Só em Manaus, havia cinco
crianças internadas em UTIs com a covid-19 e 49 em leitos de enfermaria
na terça-feira, segundo boletim da Fundação de Vigilância em Saúde do
Amazonas. Vinte e cinco dias atrás, não havia crianças internadas em
UTIs para covid-19 em Manaus e, em leitos clínicos, eram três. A
Secretaria Estadual da Saúde afirmou que vem ampliando os leitos de UTI e
de enfermaria.
No Distrito Federal, todos os nove
leitos de UTI pediátricos para doenças que exigem isolamento estão
ocupados - quatro deles com crianças já diagnosticadas com covid-19.
Já
na Bahia, dos 29 leitos de UTI pediátrica, 27 estavam ocupados (93%). A
taxa era um pouco menor, de 78%, para as enfermarias. Referência no
tratamento de doenças infectocontagiosas, o Hospital Couto Maia, na
capital baiana, pretende usar até um centro cirúrgico desativado para
abrir nova ala com mais dez leitos de enfermaria pediátrica por causa da
grande demanda.
Essa é a primeira vez que precisamos aumentar o número
de leitos pediátricos no hospital. Houve um período da pandemia em que
chegamos a desativar leitos pediátricos para atender à maior demanda de
pacientes adultos. Agora estamos vivendo uma situação contrária", diz
Ceuci Nunes, diretora do Couto Maia.
Em Curitiba, o
Hospital Pequeno Príncipe, referência no atendimento de crianças e
adolescentes, já tem mais casos confirmados de covid-19 nos 26 primeiros
dias deste ano do que em todo o ano de 2020. Dos dez leitos de UTI,
sete estão ocupados.
Vacina
Na
última quarta-feira, em Belo Horizonte, a prefeitura anunciou a
abertura de 12 leitos de UTI para adultos e dez pediátricos. Também
adiou em uma semana o início das aulas presenciais para crianças entre 5
e 11 anos, na rede pública e privada, a fim de acelerar a vacinação. No
Brasil, só 3,5% das crianças de 5 a 11 anos receberam a primeira dose.
João
Gabriel, de 5 anos, era um dos pacientes internados na capital mineira.
A avó Joana D'arc dos Reis Alves viajou de Manhuaçu, a 280 quilômetros
de Belo Horizonte, em busca de atendimento. "Ele está com febre alta, de
38 graus, três vezes ao dia, e acreditamos ser algo respiratório, por
causa dos sintomas."
O menino, segundo a família, tem
outras comorbidades e conseguiu uma vaga no Hospital Infantil João
Paulo II - todos os leitos da unidade estão ocupados e 40% dos casos são
de covid. "Não temos nem capacidade física para aumento no momento",
afirma Fabrício Giarola, diretor do Complexo Hospitalar de Urgência da
Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais.
Outras
doenças respiratórias também sobrecarregam os estabelecimentos. "O
surto foi especialmente de influenza e bronquiolite em bebês de até 2
anos, devido ao início de uma ressocialização, e, portanto, o contato
com novos vírus", afirmou o secretário de Estado de Saúde de Minas
Gerais, Fábio Baccheretti Vitor. Ele prevê que casos de doenças
respiratórias infantis comecem a cair em meados de fevereiro. "Nossa
expectativa é terminar fevereiro com o índice de internações mais
baixo."